Curitiba amplia acesso para a atenção em saúde mental na rede pública

A atenção em saúde mental está entre os grandes desafios do Sistema Único de Saúde. Com a reforma psiquiátrica de 2001, o SUS passou a trabalhar num modelo que, no lugar do isolamento, propõe a atenção ao paciente em convívio com a família e a comunidade. Uma mudança que vem sendo implantada ao mesmo tempo em que as políticas de saúde mental precisam enfrentar um problema crescente no país: o uso de drogas, particularmente o crack.

Em Curitiba, essa política ganhou reforço a partir de 2013, com medidas como a municipalização dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), até então terceirizados; a inclusão de psiquiatras nas equipes dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf) e a transferência do Departamento de Políticas sobre Drogas da área da Defesa Social para a da Saúde.

A mudança de âmbito do departamento, efetivada há um ano, decorre do entendimento de que as consequências provocadas pelo consumo de drogas devem ser encaradas como um problema de saúde pública, aliando medidas de prevenção com serviços de atendimento e recuperação de dependentes químicos. Em Curitiba, a questão das drogas é vista sob a perspectiva da assistência social e da saúde, entendendo os usuários como uma população vulnerável e ainda com baixo acesso, por diversos motivos, aos dispositivos públicos.

Ampliar esse acesso é um desafio que vem sendo enfrentando com bons resultados. Hoje, um número maior de pessoas é atendido pelos programas voltados à prevenção e tratamento em saúde mental, tendo como portas de entrada os 12 CAPS e as 109 unidades de saúde da cidade. Nesses serviços o usuário é acolhido e avaliado. A partir daí é elaborado o projeto terapêutico de cada caso – que pode envolver as equipes multiprofissionais das unidades básicas de saúde, assistidas por psicólogos e psiquiatras dos Nasf, os serviços especializados dos Caps e, quando for o caso, a rede hospitalar do Município.

Estrutura

Curitiba possui atualmente 239 leitos integrais de saúde mental em três hospitais credenciados junto ao Ministério da Saúde para atendimento pelo SUS: o Hospital do Bom Retiro, que atende pacientes de transtorno mental; a Clínica Dr. Hélio Rotemberg, para internações de tratamentos em álcool e drogas, e o Hospital Zilda Arns, para pacientes de transtornos decorrentes do consumo de álcool e drogas. No último quadrimestre de 2015, essas unidades registraram 723 internações psiquiátricas de adultos provenientes dos CAPS, unidades de pronto-atendimento (UPAs) e unidades básicas de saúde de Curitiba, em sua grande maioria.

Nos CAPS, o avanço nos últimos três anos foi muito grande. Até 2013, Curitiba possuía apenas cinco leitos, no Caps Centro Vida, exclusivamente para adolescentes. Hoje são 64 leitos em CAPS, distribuídos nas regionais: sete infantis (CAPS I) e 57 leitos adultos, divididos para tratamentos de álcool e drogas e para transtornos mentais. Ao longo de todo o ano passado, passaram por tratamento nos CAPS da rede municipal mais de 8,6 mil pacientes.

Além disso, mais de 4,6 mil crianças e adolescentes com transtornos mentais foram atendidos no ano passado no Ambulatório Enccantar por equipes que trabalham especificamente com autismo e com crianças vítimas de violências físicas graves e de violência sexual. E mais de 13.745 atendimentos nas especialidades de Psicologia e Psiquiatria foram ofertados no mesmo período nos distritos sanitários do Boqueirão, Pinheirinho, Bairro Novo e Santa Felicidade.

Ainda no ano passado, quase 4 mil pessoas participaram regular ou esporadicamente das oficinas e projetos desenvolvidos pelo Centro de Convivência.

 Atenção especializada

Outro avanço importante foi a incorporação de oito psiquiatras aos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (Nasf). Os Nasf são formados por equipes multiprofissionais encarregadas de apoiar os profissionais das unidades básicas na análise de casos e decisões sobre encaminhamentos e tratamento. “Eles auxiliam as equipes da atenção primária com avaliações mais qualificadas, além de poderem atuar em consultas compartilhadas com médicos, psicólogos de referência ou ainda na discussão dos casos”, informa a diretora do Departamento de Saúde Mental da Prefeitura de Curitiba, Luciana Savaris.

Luciana lembra ainda que os psiquiatras a serviço das Nasf também atuam na educação continuada, na capacitação e diagnósticos para a elaboração de políticas públicas voltadas, por exemplo, para a prevenção contra o suicídio e o uso de psicotrópicos.

Residências terapêuticas

As seis residências terapêuticas do SUS Curitiba, fruto da reforma psiquiátrica e em consonância com a política nacional, acolhem 40 egressos de internações psiquiátricas prolongadas, que não possuem vínculos familiares e que necessitam de cuidados permanentes. O objetivo das residências terapêuticas é garantir o convívio social, o resgate da cidadania e a reabilitação psicossocial dos seus moradores. “O cuidar em liberdade é um conceito que resume o trabalho da atenção em saúde mental hoje na cidade de Curitiba”, diz Luciana Savaris.

Com a criação das Residências Terapêuticas (RTs), Curitiba passou a oferecer um lar a pessoas com transtornos mentais graves, que antes viviam confinadas em hospitais psiquiátricos. As casas onde elas hoje residem foram mobiliadas e equipadas como as de famílias convencionais. Mas os moradores não ganharam só um novo teto. Ganharam oportunidade de manifestar e ver satisfeitos os seus desejos, de participar da vida em comunidade e de descobrir habilidades que eles mesmos desconheciam.

Histórias do dia a dia das RTs vêm mostrando a dimensão do impacto que teve na vida dessas pessoas a mudança do ambiente hospitalar para o ambiente de uma casa. O animado parnanguara Edson da Cruz Ragazzon, de 52 anos, morador da unidade Jardim Gabineto há dez anos, usa um tratamento carinhoso quando se dirige às cuidadoras da casa. “Pequenininha” é como ele chama cada uma delas. Outra pista do ambiente afetivo que ele encontrou ali é o seu relacionamento com a moradora Sueli, sua melhor amiga. “A gente brinca, a Sueli me quer bem”, diz, olhando para ela.

Ativo, ele ajuda no jardim, nos cuidados com as árvores frutíferas do quintal e em pequenos serviços da casa. Egresso do Hospital Nossa Senhora da Luz, onde permaneceu seis anos, Ragazzon se mostra bem-humorado e repete: “Aqui é legal, dá para sair na rua”. Em dias de pizza na casa, é ele quem vai buscar, acompanhado de um cuidador. Ele também assume a lista de mercado feita pelos moradores, procura os produtos e conduz o carrinho com as compras. Nos dois casos, Ragazzon faz o pagamento e confere o troco, quando é o caso.

Além de se ocupar com pintura e com seus cuidados pessoais, Ragazzon ouve música o dia inteiro. No quarto que é só dele, tem um aparelho de rádio e CD, compartilhado com os outros moradores. Costuma levar o equipamento para as salas de estar da casa, onde todos também podem ouvir músicas e se alegrar. Às vezes, sai até baile.

Do outro lado da cidade, na Residência Terapêutica Tarumã, no bairro Bacacheri, vive Osmar José Vidal, também ex-interno do Hospital Nossa Senhora da Luz. Em abril deste ano ele completou 55 anos e pediu um churrasco. A equipe da casa organizou a comemoração, com bolo e tudo. Além dos moradores, a presença dos convidados – a mãe, a irmã e a sobrinha, que levou o marido e a filha de 2 anos –  tornou seu dia especial. “Foi uma alegria para mim”, diz emocionado.

Não foram só momentos como esses que passaram a tornar melhor a realidade de Vidal. “Aqui na casa é tudo diferente”, diz, comparando os ambientes onde viveu nos últimos 19 anos. E aponta as diferenças: “No hospital tinha briga, discussão e castigo. Aqui não, aqui é tudo tranquilo. O pessoal é sossegado e eu faço o café da tarde para todo mundo. Lá, a gente saía só uma vez por ano para conhecer os parques da cidade. Aqui a gente faz passeios e eu posso sair sozinho”.

Apesar do comportamento sempre reservado, Vidal não se nega a contar fatos marcantes da sua história de vida. A memória é boa e ele sabe se expressar bem. Tem lembranças claras de sua infância em Laranjeiras do Sul. Com 8 anos, trabalhava como condutor de um homem cego e todos os dias o levava até a rodoviária da cidade. Depois disso, ele trabalhou vendendo mimosas, espetinhos e sorvetes.

Vidal relata que o pai bebia muito e que a mãe era funcionária de uma empresa de limpeza. “Os dois ficaram doentes e vieram morar num albergue, em Curitiba”. Os filhos vieram mais tarde e permaneceram no alojamento até o pai comprar uma casa na antiga Vila Capanema, hoje área do bairro Jardim Botânico.

Quando fez 18 anos, começou a trabalhar como servente de pedreiro e atuou nessa profissão até ser internado, com 36 anos, por problemas decorrentes da bebida e do uso de maconha. O internamento não reprimiu a natureza prestativa de quem se fez trabalhador ainda na infância. Logo se envolveu nas tarefas diárias do hospital, mantendo a tristeza afastada. Arrumava camas, enxugava a louça, limpava o refeitório e auxiliava nos cuidados dos internos que necessitavam de auxílio para a higiene pessoal.

Vidal tinha 42 anos quando foi morar na Residência Terapêutica. Por ter contato com a família, já foi consultado sobre sua vontade de voltar para casa, mas ele não tem esse desejo, possivelmente pelas condições precárias da habitação em que vivem a mãe e um irmão, alcoólatra. “Eu gosto daqui. Me dou bem com todos e tenho amigos”, resume os motivos de sua escolha.