Relógio Biológico e Vida Moderna

Relógio Biológico e Vida Moderna

Recentemente, um trio de pesquisadores americanos recebeu o Nobel de Medicina de 2017 pela identificação dos genes e proteínas responsáveis pelo funcionamento molecular do chamado ciclo circadiano (porque dura cerca de 24 horas). Imaginemos um retorno ao tempo das cavernas para melhor entender este ciclo que depende do claro-escuro, sem a interferência da eletricidade e da luz artificial (sem lâmpadas, televisões, smartphones e computadores): no fim do dia, acabará a luz natural do sol, os seus olhos não vão mais receber estímulo e, consequentemente, o seu organismo perceberá que é hora de descansar. A sua glândula pineal (dentro do sistema nervoso central) secretará a melatonina – o hormônio que prepara o seu corpo para dormir e esta rotina, este relógio biológico interno, funcionará dia após dia. Resumidamente, entre as 6h e 12h temos o maior estado de alerta, aumento mais rápido da pressão arterial, liberação de cortisol; entre 12h e 18h melhor coordenação, reflexos mais rápidos, maior temperatura corporal; entre 18h e 0h pico da pressão arterial, secreção da melatonina e do hormônio do crescimento GH; entre 0h e 6h queda na temperatura corporal e sono profundo. Ok, há ainda particularidades individuais (cronotipo) que classificamos em matutino, vespertino e intermediário (indiferente) que reflete o horário do dia em que o indivíduo preferencialmente encontra-se disposto a realizar diversas tarefas do cotidiano e é geneticamente determinado.

Todavia, em um ambiente urbano, as oportunidades para interação social dentro da família, no círculo de amizades, oportunidade para assistir TV, uso de internet, demandas acadêmicas e de trabalho, podem agir como sincronizadores e interferir na exposição claro-escuro e promover um atraso do ciclo sono-vigília. Muitas pessoas, portanto, vivem uma situação de conflito, em que precisam decidir entre manter a regularidade do ciclo sono-vigília e satisfazer as necessidades de sono, e responder aos esquemas escolares e de trabalho e sofrem alterações no estado afetivo (irritabilidade, ansiedade, diminuição da memória e de reflexos) e na aprendizagem.

A rotina de dormir durante o dia e trabalhar à noite acarreta inversão do ciclo vigília/sono e também provoca um desajustamento dos ritmos biológicos, trazendo prejuízos de ordem física, psíquica e social, já que nossa cultura é, em sua maior parte, diurna. O horário de verão é um exemplo de mudança sutil, mas que exige um ajuste de nosso sistema de temporização. Ele implica na perda de uma hora e o nosso organismo é obrigado a adiantar todos os seus ritmos, processo que pode demorar alguns dias e gerar desconforto em muitas pessoas.

Médico especialista em Otorrinolaringologia e Medicina do Sono.
Medicina Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Residência Médica em Otorrinolaringologia no Hospital de Clínicas da UFPR.
Fellowship em Cirurgia Plástica de Face no Instituto Paranaense de Otorrinolaringologia (IPO).
Titulo de Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial pela Associação Médica Brasileira.
Título de Especialista em Medicina do Sono pela Associação Médica Brasileira.
Mestrado em Cirurgia pelo Hospital de Cllínicas da UFPR.
Membro da International Surgical Sleep Society.