O senhor na minha frente está comprando duas fitas para máquina de escrever. A marca é Olivetti, posso reconhecer na embalagem, velha e empoeirada. O preço está rasgado, mas vejo que custa pouco mais de cinco reais cada. Fico pensando com qual frequência a papelaria vende fitas para máquina de escrever.

Fico pensando que fim teve a velha máquina de escrever do meu pai, marca ”Hermes baby”, portátil. Era linda, vestida em tom vermelho brilhante. Eu, pequena e curiosa, gostava de observar meu pai trabalhar. Ele tinha predileção pelo objeto escrevedor, o que não o impedia de me emprestá-lo com gosto. Então era ele que parava para observar a filha juntando as palavras que comumente resultavam num bilhete de amor. Amor de filha para pai.

Eu dizia que a máquina escrevia com “letra deitada”. Ele explicava, sempre gentil: “são tipos inclinados, minha filha”. Tipos! A memória me rouba um sorriso. Hoje a palavra “tipo” tem novo significado. “Tipo o que, pai?” – tenho vontade de perguntar.

Tipo, que saudade! Chego a sentir na ponta dos dedos o peso das teclas da velha máquina. Toco com a mão esquerda a alavanca e mudo para a próxima linha. Sinto de novo aquela alegria infantil dedilhando sonhos letra por letra. Os sonhos do futuro brilhante. De “todo o futuro pela frente”. Da médica ou engenheira que ele queria que eu fosse. Da escritora que ele achava que eu poderia ser.

Súbito, o “futuro” me chama. É a moça do caixa dizendo o preço da tinta da impressora. Não tenho tempo de despedir-me dele, mas ainda escuto o som de suas mãos datilografando com agilidade. Ele retira o papel e me alcança um bilhete. Está escrito, com letras inclinadas, o tamanho do seu amor. Amor de pai para filha.