Amor é mais que um sentimento repentino que acontece conosco se tivermos sorte. Amor é como um parto, doce, ardente, sangrento, imperfeito, que cria vida. Uma escolha que repetimos várias e várias vezes.

Amor revolucionário é a escolha de entrar nesse trabalho de parto por outros que não se parecem conosco, por pessoas e opressores que nos machucam e por nós mesmos.  Nessa era de enorme ódio, quando o fogo estiver queimando à nossa volta, o amor revolucionário pode ser a resposta dos nossos tempos.

Se você sente vergonha em pensar que o amor é a resposta, você pode ver que nenhum rosto que encontrar é estranho ou diferente de você e refletir sobre eles. Escutar suas histórias, conhecer histórias podem nos ajudar a ver como somos parecidos. Isso é reconhecer que as pessoas que nos fizeram mal também estão feridas, também se sentem ameaçadas, não sabem mais o que fazer com suas inseguranças além de nos machucar, de puxar o gatilho ou de lançar uma ação política contra nós. Mas quando ouvirmos suas histórias, descobrimos também que a participação na opressão tem um preço, ela retira deles a capacidade de amar.

Nós amamos nossos oponentes quando reconhecemos as feridas deles, e isso não é cura-los (só eles podem fazer isso). Reconhecer essas feridas apenas nos permite ver que as pessoas que nos machucaram foram radicalizados por culturas e políticas criando um sistema de como reagir. Quando entendermos que a luta não é contra a pessoa, mas contra sistemas, nós juntos poderemos mudar.

Essa escolha de reconhecer as feridas para poder amar, é moral e pragmática e abre a possibilidade, antes inimaginável de reconciliação. Mas claro que tudo tem seu tempo e é preciso cuidar das próprias feridas antes. Amar quem um dia nos fez mal, requer que amemos a nós mesmos. E por muito tempo foi imposto principalmente para as mulheres que reprimissem seus sentimento, sua raiva e seu luto em nome do amor e do perdão. Mas quando reprimimos nossa raiva, ela se torna ódio e vai explodir, mas geralmente implode por dentro.

Todas as nossas emoções são necessárias. A alegria é o presente do amor. O luto o preço do amor. A raiva é a força que protege. Nós nos amamos quando respiramos através do fogo da dor e nos recusamos deixar a dor tornar-se ódio. Amar apenas nós mesmo é bom, mas é narcisismo. Amar apenas os nossos oponentes é autopenitencia. Amar apenas os outros é ineficiente.  Para amar a si e todos os outros:

Não veja ninguém como estranhos ou diferentes, estamos todos juntos.

Reconheça que eles também estão feridos. Você consegue enxergar a ferida daqueles que te machucam? Se essa pergunta te causa desconforto, então reflita, escute e cure as suas próprias feridas.

Na escuridão nós respiramos e dançamos. Felicidade e amor é ato de resistência moral. E se essa escuridão não for a escuridão do tumulo mas a escuridão de ventre?! Respire e faça a sua força. E um dia poderemos cuidar dos filhos dos outros como se fossem nossos, e ensinar as pessoas amarem a si mesmas porque nós nos amaremos.

Coragem.

Texto adaptado de: Valarie Kaur.