Era padrão. No elevador, na fila do banco, na chegada ao trabalho, escola, academia. Todos falavam sobre a mesma coisa, ainda que divididos entre amor e pavor. Nos primeiros dias do horário de verão as considerações sobre o clima abriam espaço para as manifestações sobre o despertador. Uns perdiam a hora, outros perdiam o humor – e ninguém perdia a oportunidade de discutir o assunto.

Após os dias iniciais em estilo zumbi, os nobres usuários do fuso horário de Brasília – formato verão – passavam da resignação ao entusiasmo. Era tempo de usufruir das vantagens do relógio adiantado. Saíam do trabalho animados para o happy hour, para a caminhada no parque, para o passeio com as crianças. Enchiam os pneus da bicicleta, deixavam em casa o casaquinho, ganhavam a rua, os bares, a vida! Encontravam tempo para apreciar a última florada dos ipês e escutar o piar cada dia mais insistente da passarinhada novata. Era verão, afinal. Como não retribuir com um sorriso as cores intensas do pôr do sol?  

Oficialmente instituído para diluir o uso do sistema de energia, o horário de verão era aclamado pelos donos de bares e vendedores de caldo de cana. Ouvi falar que há um levante destes profissionais, mas de nada adianta argumentar com o Ministério de Minas e Energia, que decidiu que não vale a pena adiantar os relógios: a economia já não se mostra relevante. Na minha casa qualquer economia possível é relevante – mas minha opinião e minhas finanças não interessam ao Ministério.

Minha cidade é conhecida pela bipolaridade climática – ou talvez quadripolaridade, já que é hábil no manejo das quatro estações num único dia. Agora, temo que esqueça de incluir o verão no calendário. Curitiba, rainha do cinza e da melancolia, é bem capaz de compactuar com os superiores: “Não há necessidade de verão, talkey?” E assim as flores e os pneus das bicicletas vão murchar, os parques vão esvaziar, os bares vão amargar a cerveja não vendida e os beijos não trocados.  O sol não vai nascer, muito menos se pôr. Verão, para quê?

Vocês verão – primeiro esconde-se o sol, depois todo o resto. Eu exijo tardes ensolaradas e tempo para desfrutá-las. É o meu manifesto! Quero os pássaros de Quintana, rede amarela e hora feliz. Quero “uma hora a mais” para apreciar a vida que pulsa, especialmente nesta época. Quero olhar pela janela e saber que é verão, lá fora e no meu coração.