“Eu vou pra Maracangalha, eu vou!” Sorriso largo, braços abertos, gestos vibrantes. Lembro como se fosse hoje seu rosto faceiro cantando a ida pra Maracangalha. Eu, pequenina, apenas pensava onde ficaria esse lugar com o nome mais estranho do mundo.

Maio, mês festivo para a família, anuncia-se no calendário. No terceiro dia, festa de bodas; no décimo terceiro, ”festa de anos”, como você dizia. Agora, ambas as comemorações estão sem protagonista. Meu coração também, órfão de seu morador primeiro. Para aplacar este vazio, busco tuas canções.

Lembro quando compramos o primeiro aparelho de CD, a preço nada módico, na época do lançamento. “Vale o investimento” – você afirmou, convicto do melhor presente de dia das mães para a moça que gosta de música. Na Savarin, loja especializada na febre do momento, escolhemos três CD’s de música clássica, que ela ainda guarda na primeira fileira da extensa coleção que veio depois. Você, por sua vez, apreciava música popular. Encontrei o compacto com a canção da “cidade estranha” e você fez questão de comprar. O Caymmi da capa ainda não tinha os cabelos brancos que, agora, tanto me lembram você. O tempo passa também para os que cantam.

“O tempo é um santo remédio”, dizem as boas línguas e as canções. Cura, porém, as dores do corpo – não as da alma. Minha alma sem a tua não é a mesma, jamais será. Um tanto de tristeza e outro de solidão instalaram-se para sempre ali, no espaço outrora ocupado por nossas músicas – por nossa vida, juntos. Não desejo preenchê-lo com nada nem ninguém, este lugar é seu. Algumas pessoas são, sim, insubstituíveis.

Em outras canções Caymmi cantou o azul do mar, e eu eternamente cantarei o azul dos olhos teus; azul suave e transparente como a tua alma. Mergulhada nesse azul encontrei a melodia segura do seu acolhimento, da sua orientação, da sua paz. O brilho dos teus olhos permanece vivo e guia meu caminho até o nosso reencontro.

Hoje escuto nossas músicas no carro. Faço uso de um pendrive com arquivos em MP3. Coisas de um tempo que você desconhece. O que eu conheço é a paz que isso me traz. Sinto a sua companhia através da melodia que você cantava de braços abertos. Descobri que você foi pra Maracangalha, mas que ainda zela por mim. Ainda cantamos juntos, e agora sei que o lugar tão estranho fica perto de Deus.