“De onde viemos e para onde vamos?”. Esse questionamento filosófico tem acompanhado a humanidade e a ciência há diversos períodos históricos. As respostas sobre esse mistério avançam a cada descoberta científica e a cada progresso que os pesquisadores fazem sobre a origem do planeta Terra. Análises geoquímicas realizadas em meteoritos são estudos que auxiliam nessa busca e podem revelar evidências de bilhões de anos atrás, da formação do Sistema Solar. É o que cientistas querem analisar em um meteorito que caiu em Curitiba em 1977 e foi guardado por moradores do bairro Uberaba por todo esse tempo até dias atrás, quando a família decidiu procurar os especialistas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Chuva de meteoros
As chuvas de meteoros acontecem quando uma quantidade muito grande de detritos, como restos de cometas e partes de outros planetas, entra em contato com a atmosfera em alta velocidade. A maior parte desses detritos é originária de uma região elíptica do Sistema Solar formada por inúmeros asteroides e localizada entre as órbitas de Marte e Júpiter. Normalmente, os meteoros são menores do que um grão de areia e se desintegram ao entrarem em contato com a atmosfera do planeta, não chegando a atingir a superfície. “Por dia, mais de uma tonelada de detritos cai na Terra. Nosso planeta é muito úmido e os meteoritos, quando conseguem sobreviver à queda, acabam sofrendo alterações, o que chamamos de intemperismo químico e físico”, explica Fábio Braz Machado, professor do Departamento de Geologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), diretor-secretário da Sociedade Brasileira de Geologia e tutor do Programa de Educação Tutorial (PET) Geologia.

Por isso e pelo fato de a maior parte do planeta ser composta por oceanos e desertos, apesar desses eventos serem comuns, os reportes de meteoritos encontrados na superfície não acontecem com tanta frequência. No final de agosto, a cidade de Santa Filomena, no sertão de Pernambuco, teve a primeira queda com meteoritos recuperados registrada no Brasil em 2020. Moradores encontraram diversos exemplares na região, incluindo um meteorito de quase 40 quilos que despertou o interesse de muitos colecionadores. Depois do episódio, Machado tem recebido muitos relatos de pessoas dizendo possuir amostras e querendo saber se realmente são meteoritos. “A maioria absoluta não é. Minha surpresa foi esse caso de Curitiba, que realmente se trata de um meteorito do tipo condrito”, afirma.

Assim como os de Santa Filomena, o exemplar encontrado em Curitiba em 1977 é do tipo condrito. Esse gênero representa a composição química original dos planetas rochosos, como é o caso da Terra, motivo pelo qual os pesquisadores assumem que meteoritos como esse tenham aproximadamente 4,6 bilhões de anos. “Esses condritos têm uma importância científica fundamental, pois não passaram por um processo de diferenciação química, ou seja, não têm núcleo ou manto, como tem a Terra. A composição química deles é original do início da formação do Sistema Solar”, explica o geólogo.

Meteorito de Curitiba
O meteorito que caiu em Curitiba em 1977 tem, aproximadamente, um quilo e pode ser orientado, o que o torna ainda mais especial. Machado compara um meteorito orientado a uma gota de água que cai no para-brisa de um carro. “Com o vento e com o carro em movimento, essa gota fica alongada, estirada. Com o meteoro é a mesma coisa. Ele estava em um vácuo e é atraído pela gravidade do planeta, quando entra em contato com a atmosfera da Terra, fica deformado em função do ar atmosférico. É algo raro.”

A família, moradora do bairro Uberaba, presenciou a queda do meteorito que, na época, destruiu parte do muro da casa. Apesar de ter acontecido há 43 anos, o exemplar está em boas condições e o fato de ter sido guardado dentro de casa protegeu-o da umidade. “Algumas coisas se alteraram com o tempo. O meteorito fresco tem uma capa envoltória enegrecida, que se perdeu um pouco. Além disso, na tentativa de conservar o material, os moradores passaram verniz”, revela o geólogo. Após lixar algumas partes do material para retirar o verniz, ele constatou que texturas e estruturas internas estão típicas e bem preservadas e identificou a presença de cristais de olivina e de ferro.

O professor conta que os moradores que estão com o meteorito preferem que ele fique em uma instituição científica. “Isso é um ótimo sinal, pois poderemos fazer as análises necessárias em uma parte e o restante ficará em exposição para que todos que queiram entender mais sobre a origem da Terra e de outros planetas rochosos possam observar. Assim, ele não ficará trancado em uma coleção particular”. Por enquanto, os proprietários doaram para a universidade uma pequena parte do meteorito, de aproximadamente 200 gramas, que se quebrou com o impacto. Os pesquisadores já estão realizando análises na amostra.

Formação do sistema solar
Há 4,6 bilhões havia, no universo, uma grande nuvem de poeira fina em volta de uma estrela central, o sol. Essas poeiras passavam por colisões constantes. As mais pesadas, ficaram mais próximas ao sol e as mais leves, mais distantes. Essa é a fase que os cientistas chamam de planetesimal, em que houve grandes choques de massa. “Nesses choques, surgiram vários tipos de meteoros. Entres os principais, temos os rochosos e os metálicos”, relata Machado.

Entre os rochosos, existe o tipo condrito, uma grande massa de rocha. “Com o tempo, há a migração dos elementos mais pesados para a porção central dos condritos, o que chamamos de diferenciação química. O ferro e o níquel formam um núcleo e um manto. Quando isso acontece, o meteorito deixa de ser condrito e passa a ser um siderito em sua porção do núcleo e um acondrito em sua porção do manto.”

A Terra, portanto, é um condrito que passou por esse processo e sobreviveu à fase planetesimal. Seu núcleo tem a mesma composição de um siderito e o manto, de um acondrito. Porém inicialmente, quando no planeta só havia um mar de lava, sua composição era a de um condrito. “Por isso, para a ciência, os meteoritos desse tipo são extremamente importantes para entender melhor a origem do Sistema Solar, já que ainda existem muitas questões sem resposta nessa área”, destaca o professor.