A tarde de domingo foi especialmente destinada para fugas. Se Deus fugiu (mesmo que digam que ele apenas descansou) no sétimo dia, e com certeza foi na tarde do sétimo dia, acredito não ser ofensivo que façamos o mesmo. 

Não há muitas opções de fuga na cidade cinzenta. Bem, talvez haja, mas pessoas tradicionais estabelecem planos de fuga rotineiros. O nosso inclui livros e torta de castanha, o que torna o Café da livraria nosso destino preferido.

Ao lado de uma pequena pilha de livros, aprecio meu cappuccino recém-servido e minha torta favorita. A senhora à minha frente sorri, igualmente satisfeita. Assim que levo a xícara à boca, porém, ela pede para ir ao banheiro. Não posso deixar de pensar que senhoras e crianças possuem radar especial para escolher o “melhor momento” para a toilette.

O sanitário fica do outro lado do shopping. Olho com certo pesar a mesa posta. A torta repousa convidativa sobre o prato colorido, o cappuccino ainda detém os traços finos desenhados a chocolate. Ambos terão que esperar. Chamo o garçom e explico nossa necessidade urgente. Suplico que proteja nossa mesa – especialmente nossa comida, claro.

Saímos da livraria e só então me dou conta que isso pode parecer um plano para não pagar a conta. Meio sem sentido, é certo, pois nem levamos os produtos. A ideia de uma evasão em disparada, no entanto, é fascinante. Acelero a cadeira de rodas e aviso a mãe:

− Se é para fugir, que seja em alta velocidade!

Nossa fuga espetacular durou dez minutos, com direito a curva emocionante e algumas gargalhadas. Na volta, vejo com alívio que uma plaquinha de “reservado” montou guarda sobre nossa mesa. Peço outro cappuccino, que após uma debalada como esta ninguém merece café frio.

Por certo a cidade oferece muitas opções de passeio no domingo à tarde. Talvez seja bobagem escolher sempre a mesma torta, no mesmo Café da “nossa livraria”. Porém, trilhar os mesmos caminhos e degustar os mesmos sabores é como escolher amar a mesma pessoa todos os dias. Não é rotina, é ritual.

Tenho por protocolo ser feliz. Se num domingo qualquer a vida estiver cotidiana demais, basta executar algum plano levemente espetacular. Basta roubar uma gargalhada de quem se ama. Basta colocar mais emoção no caminho. Basta olhar o horizonte e ter a certeza de que Deus jamais descansou.