Quando você faz uma previdência privada, pensando em deixar uma segurança financeira para um ente querido, por exemplo, para seu cônjuge, no caso do seu falecimento, imagina que já deixando o nome do beneficiário anotado na apólice da previdência, será fácil para ela receber, pensava eu, que bastaria ela comprovar com um documento ser o beneficiário, neste caso, a esposa do titular, para receber o dinheiro. Acredito que como eu, muitos pensam ser assim.

Ledo engano, só quando você passa pela situação, é que descobre que fácil, foi apenas assinar a apólice que o gerente do banco lhe ofereceu. 

Neste caso, o plano de previdência foi feito através de um grande banco privado, mas os outros se assemelham a esse também.

A beneficiária, a esposa, que o marido antes de falecer, já havia lhe dito ser a beneficiaria do plano, vai ao banco, e fala com a gerente da conta do marido, que por sinal também é a sua gerente, pois a conta deles era conjunta, e ambos eram clientes desse banco há mais de 30 anos. Esta gerente lhe entrega uma relação enorme de documentos que precisarão ser providenciados pela beneficiaria. Documentos estes que vão desde certidão atualizada de casamento, certidão de óbito, RG, CPF do falecido e da beneficiaria, se ele tem cidadania no exterior, se é militar ou político, além de vários outros documentos que precisam ser preenchidos. Até aí, tudo bem, você se assusta, pois imaginava que bastasse comprovar com RG e CPF ser a beneficiaria. Está bem, você entrega todos os documentos, a gerente revisa, diz que estão corretos e que serão encaminhados para o setor responsável.

Na teoria falam que entre 15-30 dias após a entrega dos documentos, você receberá os valores. Na pratica, o que acontece é bem diferente,  a gerente demora mais de 20 dias para encaminhar seus documentos para o setor responsável, a beneficiaria entra em contato com a gerente e esta diz que o processo está andando, liga na 2ª semana, para ver se já está quase saindo, ela diz a mesma coisa, na 3ª semana a gerente pergunta se você está precisando do dinheiro, a beneficiaria responde que sim, e só no 23º dia após a entrega dos documentos terem sido entregues, liga uma pessoa do setor de previdência privada do banco, para lhe dizer que os documentos chegaram á ela naquela data, e que ela vai cuidar do caso, mas que se você tiver alguma dúvida, ou quiser conversar com ela, terá que entrar em contato com ela através da sua gerente, aquela, que demorou 23 dias para encaminhar seus documentos para o setor responsável.

No dia seguinte você abre seus e-mails e encontra um e-mail desse setor solicitando 4 documentos, que dizem não terem sido entregues, só que foram entregues, aí você tenta responder a esse e-mail, e ele volta, não tem como responder, é aquele tipo de e-mail “não responda”.

Nessa o que você faz? Ou a beneficiaria vai ter que juntar esses documentos tudo de volta, ou como foi feito nesse caso, na hora de entregar ao banco os documentos, foi tirado cópia de tudo, e protocolado, todas as páginas, com o carimbo do banco, data e assinatura da entrega. Então de posse disso enviou-se um e-mail para a gerente da conta, perguntando o que havia ocorrido com os documentos, já que tínhamos protocolo que os mesmos foram entregues.

Enfim, não pediram mais esses documentos, mas aí pediram outro, um comprovante de residência da beneficiaria, que ela por residir a mais de 55 anos com o marido, tinha todas as contas no nome do marido , como água e luz, a não ser os extratos bancários, desse mesmo banco, que recebia em casa também, mas falaram que extrato do banco não serve, que ela apesar de ser cliente do banco também a muitos anos, terá que fazer uma declaração do próprio punho, dizendo que morava no mesmo endereço do falecido e colocar duas pessoas como testemunhas, no mesmo papel, com assinatura registrada em cartório, e entregar isso a gerente.

Mais um detalhe, na maioria das vezes uma pessoa que vem a falecer é idosa, e muitas vezes deixa como beneficiaria sua esposa, também idosa, ou outro beneficiário que pode ter dificuldade em lidar com os meios digitais, pois solicitam escaneamento de documentos, anexos em sites confusos, entre outras coisas. Se esse beneficiário não tiver alguém de confiança que possa lhe ajudar, muitas vezes acaba desistindo, tamanha é a burocracia e a dificuldade para se conseguir, algo que aparentemente parecia ser tão simples, e o dinheiro acaba ficando para o banco/seguradora. Além disso se não entregar toda a documentação solicitada, o processo para e o dinheiro da previdência, que era desejo do antigo cliente do banco, não é pago.

Neste caso, a beneficiaria é a esposa do titular que faleceu, e por isso tinha acesso aos documentos dele, como certidão de óbito e RG, mas se o titular tivesse deixado como beneficiário uma pessoa que não tivesse acesso aos seus documentos, um amigo ou entidade carente? Entre os documentos solicitados estão documentos que só os parentes mais próximos têm acesso, e se faltar algum, o processo para.

Mais de 30 dias se passaram desde a entrega dos documentos, e até o momento os valores da previdência privada ainda não saíram, sem contar o desgaste físico e emocional da situação, não se tem previsão de quando o dinheiro será pago. Quanto tempo mais irá demorar para o beneficiário conseguir receber o que é seu por direito? Infelizmente você só descobre que o negócio funciona assim, quando passa pela situação.

Quando o banco ou seguradora lhe oferece a previdência privada, você não precisa de nenhum documento, basta assinar um papel, nem comprovante de residência eles pedem, e fazem você acreditar que é uma coisa segura e simples, mas a realidade é bem diferente, a coisa é desorganizada, você não consegue falar com o setor responsável, não encaminham os documentos de maneira correta, você não sabe quando vai receber, e na verdade fica inseguro até para poder confiar se realmente receberá.

Será que existe algum estudo para se saber quantas previdências privadas não foram pagas e ficaram para os bancos/seguradoras?

Será que vale a pena fazer previdência privada, principalmente se for para deixar para um beneficiário? Uma situação a se pensar.