Embora seja uma prática costumeira de muitas pessoas consumirem álcool antes de irem para a cama, por mais que ajude alguns a adormecer mais rapidamente, o sono destas pessoas não será de boa qualidade. Além dos riscos óbvios de alcoolismo e múltiplos efeitos deletérios para o organismo, trata-se de um equívoco recorrer a um copo de cerveja, uísque ou taça de vinho na tentativa de conseguir um boa noite de sono. O álcool pode induzir o sono em algumas pessoas, mas prejudica a segunda fase do sono noturno, reduzindo o sono REM (uma fase de sono profundo) e induzir o despertar precoce com uma sensação de sono não reparador na manhã seguinte. Dessa maneira, até a fixação de memórias fica prejudicada, com um “apagão” característico relatado por muitas pessoas. Aquele efeito sedativo na primeira metade da noite pode explicar porque algumas pessoas com insônia buscam o álcool como auxílio para dormir, porém, não se deve ingerir álcool à noite para tratar sintomas de insônia.

Além das alterações na estrutura do sono, o álcool manifesta um efeito relaxante muscular e depressor do Sistema Nervoso Central podendo induzir roncos e apneia do sono, contribuindo mais uma vez para um sono não reparador, superficial e com múltiplos despertares. Outro efeito do álcool se refere à possível indução de comportamentos anormais à noite, entre eles o sonambulismo e pesadelos. Há um aumento da diurese noturna com o uso de álcool e o sono pode ser interrompido também pela necessidade de idas frequentes ao banheiro para a micção. Por fim, o álcool pode aumentar a sudorese noturna, por meio do efeito de vasodilatação e causar um incômodo extra ao indivíduo.

O uso frequente do álcool pode induzir rápida tolerância no organismo ao seu efeito sedativo, associado ao risco de dependência, ou seja, a pessoa precisará aumentar progressivamente a dose necessária para obter o mesmo efeito de indução do sono. O álcool é uma droga de ação rápida, cujo metabolismo é principalmente no fígado, que entra na corrente sanguínea e atinge o cérebro em questão de minutos, mas seus efeitos são de curta duração e a sonolência rapidamente desapareça. Além do mais, muitos medicamentos podem interagir com o álcool, além daqueles utilizados para induzir o sono, causando sérios riscos para a saúde do indivíduo.

Em suma, trata-se de um equívoco lançar mão de bebidas alcóolicas para induzir o sono, com implicações negativas para a qualidade do sono e quantidade do sono.

Dr. Fernando Mariano
Médico especialista em Otorrinolaringologia e Medicina do Sono. Medicina Universidade Federal do Paraná (UFPR). Residência Médica em Otorrinolaringologia no Hospital de Clínicas da UFPR. Fellowship em Cirurgia Plástica de Face no Instituto Paranaense de Otorrinolaringologia (IPO). Titulo de Especialista em Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial pela Associação Médica Brasileira. Título de Especialista em Medicina do Sono pela Associação Médica Brasileira. Mestrado em Cirurgia pelo Hospital de Cllínicas da UFPR. Membro da International Surgical Sleep Society.