Com 328 mil idosos, segundo dados do IBGE de 2025, Curitiba já tem mais pessoas com idade acima dos 60 anos do que crianças e adolescentes até 14 anos. Entre as inúmeras questões que envolvem o envelhecimento da população da capital – como saúde, qualidade de vida e aposentadoria –, a violência contra quem chegou a 60+ tem se mostrado um problema crescente. Esta segunda-feira (15/6) é o Dia Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Pessoa Idosa.
Desde o começo do mês, a Prefeitura de Curitiba – através da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano (SMDH) e seu Departamento de Políticas para Pessoa Idosa – vem realizando uma grande programação que integra o Junho Violeta. São eventos dedicados à conscientização do combate à violência contra as pessoas com mais de 60 anos.
“Como cidade amiga do idoso, que desenvolve políticas públicas voltadas ao envelhecimento ativo e à qualidade de vida, Curitiba tem o compromisso de ser uma cidade cada vez mais preparada para o envelhecimento da população. Isso significa não apenas ampliar os programas e serviços para este público, mas também enfrentar as violências e garantir os direitos das pessoas idosas. Diante dessa realidade, é essencial que o poder público atue de forma integrada, através da rede de serviços ofertada pela Prefeitura, para fortalecer a proteção e a defesa dos idosos”, destaca Carlos Eduardo Pijak Jr., secretário de Desenvolvimento Humano.
Este compromisso da Prefeitura de Curitiba, através da SMDH, em ampliar não apenas as políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável, mas também as ações de proteção e garantia de direitos, ganha ainda mais relevância diante do avanço das ocorrências de violência contra esses cidadãos registradas em Curitiba.
Segundo dados do Departamento de Políticas para Pessoa Idosa da SMDH, as agressões físicas e morais contra idosos em Curitiba vêm crescendo nos últimos anos. No período de 2022 a 2025 o crescimento acumulado deste tipo de crime foi de 37%. “A maior parte dos casos, 86%, são de violência doméstica”, alertou a chefe do Departamento de Políticas para Pessoa Idosa da SMDH, Luciana Cristina Nunes de Faria.
Em 2024, foram notificados 840 casos de agressões a idosos. Os dados de 2025 ainda não estão fechados, mas já foram computadas 762 notificações. As denúncias tratam de casos de negligência e violências física, patrimonial, psicológica e emocional.
Violência silenciosa
Luciana reforça que, além da agressão física, pessoas que já estão com mais de 60 anos também são vítimas das chamadas violências “silenciosas”, que na maioria das vezes não aparecem nas estatísticas.
“De acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, caracteriza-se como violência contra o idoso qualquer ação ou omissão que cause danos físico, emocional, financeiro ou psicológico a uma pessoa idosa. A violência financeira, inclusive, é uma das formas mais frequentes e menos reconhecidas de abuso contra essa faixa da população”, explica Luciana.
Como identificar
Ela reconhece que identificar a violência contra um idoso pode ser difícil, especialmente porque muitos deles sentem vergonha, medo ou culpa e, por isso, não relatam o abuso. “Além disso, o agressor muitas vezes é alguém próximo, como um membro da família, o que torna ainda mais complexo realizar a denúncia. Entretanto, alguns sinais podem indicar que há algo errado, como mudanças de comportamento, condições de má higiene, isolamento social e declínio inexplicável da saúde, além de lesões físicas”, esclarece ela.
Luciana destaca ainda que a Prefeitura tem toda uma rede, formada pelos órgãos que prestam atendimento aos idosos, que está preparada para encaminhá-los a serviços de assistência social em caso de qualquer tipo de violência. “Há todo um trabalho integrado da Prefeitura, como as secretarias municipais de Saúde e de Esporte e Lazer e FAS (Fundação de Ação Social), com articulação da SMDH”, observa ela.
Postos de saúde, UPAs, Hospital do Idoso, centros de esporte e lazer, Espaços ConViver, casas de acolhimento e CRAS estão entre as unidades do município que integram essa rede.
Os profissionais destes espaços do município têm um olhar atento para perceber os sinais de violência contra o idoso e fazer os encaminhamentos necessários.
Convivência
A chefe do Departamento de Políticas para Pessoa Idosa da SMDH avalia ainda que uma das formas de dar dignidade à pessoa idosa é promovendo a convivência em iniciativas como os Espaços ConViver. Atualmente, há unidades nas regionais Matriz, Boa Vista, Boqueirão, Portão e Santa Felicidade.
“Os Espaços ConViver oferecem atividades físicas, de lazer, arte e cultura. E nós temos três universidades abertas, em uma parceria com o Estado, junto com a Unespar, que ficam no Boa Vista, Cajuru e Bairro Novo. Então, hoje nós atendemos 660 idosos com atividades gratuitas diárias nos Espaços ConViver e 130 alunos nas Unapis (Universidade Aberta à Pessoa Idosa), em um total de mais de 4 mil atendimentos em atividades nesses locais entre janeiro e abril deste ano”, disse Luciana.
Ela explica ainda que deixar o idoso falar livremente, sem interrompê-lo ou julgá-lo, é a principal ferramenta de escuta e acolhimento para identificar maus-tratos, pois muitos evitam relatar por medo ou dependência. “Em locais como o Espaço ConViver e durante o atendimento em outros serviços da rede da Prefeitura, eles acabam se permitindo esta liberdade”, completa a chefe do Departamento de Políticas para Pessoa Idosa da SMDH.
A SMDH é responsável pela articulação de políticas públicas para a pessoa idosa, bem como para migrantes, crianças e adolescentes, prevenção ao uso de drogas e Terceiro Setor.
Entenda as diferentes formas de violência contra o idoso
- Negligência ou abandono: caracteriza-se pela recusa ou omissão de cuidados, ou ainda ausência de amparo ao idoso.
- Física: apesar de ser a forma de agressão mais perceptível, nem sempre a violência física deixa marcas ou hematomas, como beliscões ou empurrões. Por isso, é importante estar atento aos menores sinais.
- Psicológica: é caracterizada por agressões verbais, menosprezo e humilhação, ou ações que causem sofrimento emocional. Todos esses são considerados atos de violência.
- Financeira: envolve a exploração ou o uso inadequado dos recursos financeiros, frequentemente por parte de pessoas próximas, como familiares, cuidadores ou amigos.
- Patrimonial: qualquer prática ilícita que comprometa o patrimônio do idoso, como forçá-lo a assinar um documento, alterações em seu testamento, venda de bens móveis e imóveis sem o consentimento voluntário do idoso, falsificações de assinatura e práticas afins.
- Institucional: são todas as violências exercidas em ambientes institucionais, públicos ou privados – como hospitais, instituições de longa permanência etc. –, como por exemplo o não atendimento das necessidades, a negação de atendimento, entre outros.
- Sexual: abusos relacionados a obter excitação, relação sexual ou práticas eróticas, por meio de coação com violência física ou ameaças.
Sinais comuns de violência contra o idoso
- Lesões físicas: hematomas, cortes, fraturas ou queimaduras podem ser indícios de violência física. Essas marcas podem ser acompanhadas de explicações inconsistentes ou contraditórias tanto do idoso como do agressor.
- Mudanças comportamentais: alterações no comportamento como ansiedade, depressão, afastamento social repentino ou medo excessivo. O idoso pode demonstrar nervosismo na presença de certas pessoas ou evitar contato com elas.
- Negligência evidente: condições como má higiene, roupas inadequadas para o clima, desnutrição ou feridas não tratadas.
- Isolamento social: o idoso é impedido de manter contato com amigos, vizinhos ou outros familiares, uma forma de abuso para encobrir outras formas de violência.
- Declínio inexplicável de saúde: problemas de saúde que pioram sem explicação clara ou ausência de atendimento médico necessário podem ser sinais de negligência ou abuso.
- Declínio inexplicável do padrão de vida: sem explicação o idoso perde a autonomia e a qualidade de vida, muito comum em violência financeira.
- Constrangimento de falar: em uma consulta, por exemplo, o idoso é impedido por acompanhantes de falar livremente ou sendo interrompido o tempo todo.
Serviço
Como denunciar uma suspeita de violência contra a pessoa idosa
- Central 156 da Prefeitura de Curitiba: 156
- Disque Idoso: 0800-410001
- Disque Direitos Humanos: 100
- Conselho Estadual dos Direitos do Idoso: 41-3210-2415
- Ministério Público: 41-3250-4883
- Policia Militar: 190
- Polícia Civil: 197
- Disque Denúncia: 181


