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sexta-feira, 8 maio 2026

Mães que empreendem: histórias de coragem, recomeços e amor que atravessam gerações

Que as mães desempenham inúmeros papéis no dia a dia, todo mundo sabe. Nos últimos anos, muitas delas também assumiram outro desafio: empreender. Entre a rotina com os filhos, a casa, as contas e os compromissos, elas ainda encontram espaço para administrar empresas, liderar equipes e transformar sonhos em realidade.

Com essas mães empreendedoras, cresce também uma nova geração de filhas inspiradas por mulheres que aprenderam, desde cedo, a lutar, criar e persistir. São histórias marcadas por talento, criatividade e resiliência, mas principalmente por afeto. Amor pelos filhos, pelo trabalho, pela própria trajetória.

Pode ser a mãe refugiada da guerra que hoje celebra a paz ao lado dos filhos brasileiros. A filha que transformou as receitas da mãe em um negócio cheio de identidade. Ou ainda mãe e filha que decidiram empreender juntas para ensinar educação financeira a jovens.

Histórias diferentes, mas conectadas pela maternidade como força motora. Nesta semana de Dia das Mães, essas mulheres mostram que empreender também é um ato de cuidado, coragem e construção de futuro.

Filhos da paz

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A trajetória da empreendedora síria Myria Tokmaji é marcada por recomeços. Mãe de Laura, de 3 anos, e do pequeno Rafael, que ainda não completou um mês, ela encontrou no empreendedorismo uma forma de reconstruir a própria história depois de fugir da guerra na Síria.

Radicada em Curitiba desde 2013, Myria criou a marca autoral Ebla Joias, que transforma memória, identidade e resistência em peças carregadas de significado cultural e histórico. As joias misturam prata, madeira, madrepérola, bordados feitos à mão e inscrições em árabe e aramaico, língua ancestral falada por Jesus Cristo.

Nascida em Alepo, na Síria, ela cresceu em meio à arte, à música e ao trabalho manual. Filha de ourives, acompanhou desde cedo o processo de criação das joias da família. Com o início da guerra, a vida mudou completamente. Sem poder escolher o destino, ela e a família chegaram ao Brasil e recomeçaram do zero entre Curitiba e São José dos Pinhais.

Depois de enfrentar dificuldades e adaptação em um novo país, Myria estudou design de joias e decidiu criar a própria marca. Hoje, mesmo vivendo o puerpério, segue conduzindo os projetos entre uma mamada e outra.

“Sou uma mulher migrante, refugiada da guerra na Síria, e reconstruí minha vida no Brasil ao lado do meu marido, Oscar, também migrante da Venezuela. Juntos, formamos uma família com dois filhos curitibanos, nascidos em paz e isso, para mim, é um milagre cotidiano. Todos os dias agradeço a Deus por poder viver essa realidade, tão diferente da que um dia deixei para trás. Empreender, nesse contexto, não é apenas trabalhar: é resistir, recomeçar e transformar a própria história”, afirma Myria.

Para ela, ser mãe e empreendedora é aprender diariamente a transformar o amor em combustível.

“Não é sobre dar conta de tudo, mas sobre dar sentido a tudo. Meus filhos são minha maior inspiração, e é por eles, e com eles, que sigo construindo um caminho com coragem, identidade e significado, mesmo nos dias mais desafiadores”, diz Myria.

Unidas pelo empreendedorismo e educação financeira

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Mariana Motta de Matos Rosa cresceu em uma casa onde falar sobre dinheiro, planejamento e organização financeira fazia parte da rotina. Filha da bancária Vanessa Cristiane Motta de Matos, ela aprendeu desde cedo a enxergar a educação financeira como ferramenta para transformar vidas.

Ainda criança, Mariana começou vendendo pulseiras de elástico na escola, depois balas de brigadeiro. Mais tarde, passou a dar palestras sobre educação financeira para estudantes. O interesse pelo tema cresceu até que, ao lado do especialista em gamificação Sam Adam e da própria mãe, criou a Investeendo, startup voltada à educação financeira e empreendedora para jovens em idade escolar.

Segundo Mariana, a mãe sempre foi o maior exemplo da mulher que gostaria de se tornar. “Eu sabia que todas as broncas eram para que eu evoluísse como pessoa. Isso fortaleceu ainda mais nossa relação, porque além de respeitá-la como mãe, eu a via como espelho da profissional, esposa e mãe que gostaria de me tornar”, conta.

Ela afirma que dividir os desafios do empreendedorismo ao lado da mãe tornou a relação ainda mais forte.

“Estamos juntas nessa caminhada desde então, dividindo desafios e conquistas. Não tem preço ter ela do meu lado. Se tem uma coisa que me faz feliz é quando ela fala que tem orgulho de mim. Na hora, penso que só sou quem sou por causa dela”, diz Mariana.

Para Vanessa, a sociedade entre mãe e filha deu um novo significado à relação construída ao longo da vida.

“Empreender ao lado da minha filha é um privilégio que transformou não só a minha trajetória, mas também a forma como enxergamos nossos sonhos. Construímos juntas algo que vai além de um negócio. Estamos criando um legado baseado em valores, respeito e admiração mútua”, afirma a empresária. E como a Mariana já adiantou, ela também destaca o orgulho ao ver a filha amadurecendo profissionalmente.

“Hoje, como mãe, meu maior orgulho é vê-la se transformando em uma mulher admirável, que me emociona pelo profissionalismo, dedicação e pela forma como encara os desafios”, completa.

Receitas de família que viraram negócio

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Foi observando a mãe na cozinha e acompanhando a rotina da família no comércio que Gehane Chamun Saade descobriu sua paixão pela gastronomia. As receitas da mãe, Zeina Chamun Saade, foram o ponto de partida para a criação da Sukar Coffee, cafeteria especializada em doces árabes artesanais, cafés árabes preparados por decantação e pratos típicos da culinária libanesa.

O empreendimento se tornou uma das poucas cafeterias árabes de Curitiba e carrega, em cada receita, a herança cultural da família.

Gehane conta que quando decidiu abrir a cafeteria, o medo inicial deu lugar ao apoio da família. “Eu dizia para minha mãe que não sabia nem fazer café árabe direito, porque quem fazia era ela e meu pai. E ela me respondeu: ‘não se preocupe, nós vamos te ajudar’. No início, eles me ajudaram muito na cafeteria”, relembra a empresária.

Hoje, além de inspirar as receitas do cardápio, Zeina continua participando do negócio, ajudando no preparo dos pratos e compartilhando a experiência de mais de 30 anos no comércio. Nas sextas-feiras, o pai, Paulo Miguel Saade, também ajuda na produção dos pratos mais complexos para atender a demanda da cafeteria.

Gehane afirma que a influência da mãe está presente em cada detalhe do negócio.

“Tudo o que construí carrega as mãos da minha mãe. Foi com ela que aprendi a transformar amor em acolhimento, tradição em trabalho e coragem em caminho para empreender. As receitas de família foram a base de tudo o que vendo hoje. Até nas mudanças de cardápio, eu sempre peço ajuda para ela’, diz a empresária.

Zeina acompanha com orgulho o crescimento da filha e acredita que o talento para a culinária surgiu ainda na infância. “Ela cresceu aprendendo sobre nossa cultura e nossa comida. Sempre teve sensibilidade para os sabores e gostava de participar. Eu incentivei muito para que começasse a cozinhar e vender. Esse é o dom dela”, afirma Zeina.

Para a mãe, ver a filha empreendendo é também enxergar a continuidade de uma história construída em família.

“Espero que o futuro dela seja brilhante e que ela continue levando adiante essa tradição, ensinando outras pessoas e mantendo viva a comida que aprendeu em casa”, completa.

Inspiração para outras mães

O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico e Inovação, Sérgio Bento, destaca que histórias como essas mostram a força transformadora do empreendedorismo feminino dentro do ecossistema de inovação da cidade.

“Essas mães empreendedoras fazem parte do ecossistema de inovação e empreendedorismo que a Prefeitura de Curitiba fortalece por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Inovação e  Agência Curitiba de Desenvolvimento e Inovação. São mulheres que inspiram pela coragem de recomeçar, pela capacidade de transformar talento em oportunidade e pelo amor que colocam em tudo o que constroem. Cada negócio carrega não apenas geração de renda e desenvolvimento para a cidade, mas também histórias de afeto, superação e legado que atravessam gerações”, afirma Bento.

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EDIÇÃO IMPRESSA Nº 141 | MARÇO/2026

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