Quisera ser índio, de antes, não de agora porque o agora não é índio, mas ser índio, não sei se livre, mas em liberdade, parte do todo feito pelo Deus Supremo. Faria parte dos rios, subiria para respirar e mergulhar novamente; a água limpa me mostraria o peixe da minha fome; e a minha sede morreria no rio de água limpa. Montaria no rio vivo e ele me levaria serpenteando o caminho só dele feito por ele. Eu viveria só do rio vivo!

A terra me chamaria para morar com ela, ainda vivo. Dela retiraria a morada, que me abrigaria da chuva e do sol de Deus; nela a rede encontraria para deitar sem contas, sem o amanhã, deitaria apenas com o hoje. Levantaria com o sol e com os pássaros e com o ar limpo, e beberia da vida da terra. Nela não moraria a fome, nem o frio, nem o descaso. Eu viveria despido, também de preconceitos, de preocupações, de ilusões. Seria mais forte e mais sábio e mais sincero e mais inocente. Saberia o caminho do vento e quantas estrelas existem no céu; quando plantar e quando colher; quando perdoar. Amaria mais o Todo que fizera o tudo, seria mais simples. A vida viveria vivo cada dia de toda a minha vida! Eu seria pelo que sou.

Mas não o sou. Sou cidadão. Tenho direitos, e deveres. E uma Constituição. Não sei do rio, nem da terra que me chama. Sei da máquina. Sem ela não há vida, não há sardinha-em-lata, não há lápis com ponta, não há café moído; não há exportação, nem importação, nem dólar. Não sei viver sem a máquina, é ela que me acorda e me faz o café; leva-me para o trabalho, faz-me trabalhar; sem ela não vejo a terra de longe, o rio de longe, a vida de longe. Ela me aproxima do próximo bem longe, mas me afasta do próximo bem próximo, e aí não há mais calor… Faz-me curvar a fronte, tira-me o horizonte e me enterra no irreal. Mergulho em um rio de bytes, oceano de info, e navego sem direção, aporto em qualquer porto, não importa. Onde agora o sol? Onde agora o vento? Onde agora a vida? Perdida… Preso à tela que revela o bem e o mal, fito os olhos tão perto, tão longe! Não há ao redor e me desprotejo. A máquina me encaixota…

E por fim é ela que não me deixa morrer, segura-me por um fio, ou dois, já não me lembro… É, acho que podem ser mais, mas agora já não faz tanta diferença… a doença… a doença… há doença…