O uso desenfreado de celulares, tablets, múltiplas telas e jogos viciantes pode ter complicações para a saúde física e mental de crianças e adolescentes. O alerta feito neste Dia Mundial da Saúde (7/4) evidencia um problema que, segundo pesquisadores, ocorria antes da pandemia de covid-19 e pode estar se agravando com o maior tempo das pessoas dentro de casa.

“Ouso dizer que não tem família hoje no mundo, fora comunidades isoladas, que não convivam com a inabilidade de controlar o uso da internet e das redes sociais, transversal a todos aqueles que estão vivendo esse momento de crise na sociedade contemporânea”, afirmou o secretário municipal de Defesa Social e Trânsito, Péricles de Matos.

Coordenado pelo Departamento de Política Sobre Drogas, vinculado à Defesa Social, o debate virtual sobre o tema foi transmitido pelo Youtube da Prefeitura e mediado pelo médico e psiquiatra Ricardo Losso.

“Trouxemos a proposta nesta data porque a dependência tecnológica tem consequências negativas muito próximas das liberações químicas de outras drogas lícitas e ilícitas”, ressaltou Thiago Ferro, que integra a equipe do Política Sobre Drogas.

Uso moderado e formas de controle

Longe de banir as tecnologias, que facilitam o cotidiano profissional e pessoal, é na forma desorganizada e excessiva das mídias – uma escolha individual – que está o perigo, conforme destaca a psicóloga e psicopedagoga Roseane Mendes Bernatt, conselheira técnica do Instituto de Tecnologia e Dignidade Humana (ITDH).

“Não é uma relação equilibrada. Essas interações ativam certas áreas de recompensa cerebral. No momento em que a criança fica eufórica após uma conquista ou passagem de fase num jogo não é a hora de dizer ‘agora chega, vamos jantar’ – esta combinação precisa ser estabelecida antes de fornecer a tecnologia ao filho, combinando o tempo permitido para a atividade”, disse Roseane.

Ela orienta que sejam utilizados mecanismos de controle parental sobre acessos e utilização da internet.

“Você deixaria o filho sozinho no calçadão da Rua XV? Então porque largá-lo sozinho na internet, que é uma terra de ninguém?”, compara.

Roseane observa que a dificuldade é maior ao cobrar dos pequenos uma atitude quando ela é reproduzida pelos adultos.

“Temos pais mais encantados com o mundo virtual que as crianças. Precisamos buscar alternativas para ocupar o tempo, como jogos analógicos e passeios seguros”, completa, lembrando que a dependência tecnológica pode vir associada a transtornos como fobia social e ansiedade.

Prevenção a problemas físicos

Passar horas em frente à TV ou ao computador sem a devida atenção também pode provocar problemas de coluna e dores musculares que, não perceptíveis ainda nas crianças, podem se tornar uma convivência crônica para a vida.

Manter o braço num ângulo de aproximadamente 90 graus ao usar o computador, assim como cotovelos e antebraços apoiados na mesa ou no encosto da cadeira, são fundamentais, conforme indica a a fisioterapeuta especializada em ergonomia, socorrista e especialista em Urgência e Emergência Thaise Novaes Glaser, que faz parte do ITDH. Os pés precisam ser mantidos no chão e o terço superior da tela do monitor precisa estar na linha dos olhos. Para as duas situações, o apoio de uma caixa ou um tijolo podem ajudar.

De acordo com Thaise, tornar o uso das tecnologias moeda de troca – atrelar à organização do quarto ou à alimentação correta durante as refeições – pode não ser o melhor caminho.

“Esse novo tempo não pode ser justificativa para ficar conectado o tempo todo. A tecnologia tem roubado tempo da infância e de aprendizado”, aponta a fisioterapeuta.

Tecnologia como aliada

Para fazer o contraponto, a psicóloga e coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) infantil Boa Vista Ana Paula Romani Fernandes apresentou vantagens da tecnologia para o atendimento à saúde mental feito a distância.

“Conseguimos acalmar crises pelo telefone mais rapidamente do que se precisássemos do deslocamento”, comentou sobre o serviço prestado no Caps.

Ana Paula destacou ainda o TelePaz, serviço de escuta ofertado pela Prefeitura às pessoas que sintam necessidade conversar com um psicólogo por medo e ansiedade devido à pandemia da covid-19.

O debate teve ainda contribuições do psicólogo Cristiano Nabuco, referência sobre o assunto no País, que deu início a pesquisas a partir da percepção de que o brasileiro era quem mais passava tempo na internet a partir de conexões domésticas, e da professora aposentada do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal do Paraná Roseli Boerngen-Lacerda.

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