Estávamos à mesa, no jantar. Este é um momento de comunhão. Repartir o pão. Momento de família. Então ele me olhou e disse: “Pai, vou sair de casa e morar com uns amigos”. Eu já esperava. Assim que nasceu, eu disse: “Um dia ele irá embora”. Vinte e dois anos moldando, aparando arestas, aperfeiçoando. Mas a obra vai tomando vida independente, já não vislumbra o horizonte na mesma linha que os pais. Seus pés e passos têm vida própria. Suas mãos, não mais nas minhas mãos, agarram outras oportunidades. Seu coração não mais no ritmo maternal. Sua mente voa… então bate asas.

Há um tempo para tudo (Eclesiastes 3). Mas nem sempre entendemos esse tempo. Pensamos ser cedo, ou tarde. Sabemos que o tempo amadurece o fruto. E as pessoas? Na verdade, cada um de nós somos um fruto diferente, com tempos diferentes. Em tempos diferentes. Mas é tempo? Só o tempo do amanhã dirá. Que bagagem levará? Será que não esquecerá o casaco? Os conselhos? Chegará tarde? Com quem andará? Com as suas próprias pernas? “Filhos, melhor não tê-los…”, disse uma vez o “Poetinha”. Mas os tenho. Livres do cordão umbilical; agora, do meu domínio. Que mundo lhe construí? Haverá choque dos mundos, que vença o melhor.

“Vai com Deus!”, respondi. Disse isso porque lhe quero o melhor, e o melhor sempre será Deus! Pois só Ele sabe o tempo do amanhã, os abismos, os tropeços, os voos, a vida do amanhã. Deus é Norte. Mesmo se ele não quiser companhia, Deus é presente. Não é uma mera expressão, mas um desejo íntimo, uma expressão de preocupação de pai que vislumbra um sombrio panorama humano. “Vai com Deus!”. Quer ir, vai, mas com Deus. Não o criei para o mundo, nem mesmo para mim. Mas para que soubesse conviver consigo mesmo e com o próximo. Pois ele vai sair, mas também vai entrar, e entrar em uma jornada sem tripé. Navegar, muitas vezes, sem vento. Voar por instrumentos. Saberá lê-los? Foi-lhe dado instruções! Que Deus lhe seja O navegador!

Resta um. Não é um jogo, resta um lugar à mesa. Falta a presença. O olhar. O gesto. O silêncio. Foram anos. Foram-se os anos. Agora são outros anos. Talvez distantes, talvez saudades. “Como sabê-los?”, diz também o “Poetinha”. Somente o tempo, sim ele de novo, pode nos dizer. Deu certo? Fiz certo? É o tempo certo? Havia o tempo de espera, de maturação, de construção; agora, há o tempo de escolhas, há o tempo de realizações, de provações, de separações. Houve o ontem, e agora há o hoje. Há um lugar à mesa, mas no tempo certo, quem sabe precisarei de mais lugares?