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sexta-feira, 14 junho 2024

Como me tornei a maior artilheira das Olimpíadas

As Olimpíadas de 2004 começaram para mim um ano antes, no Pan de 2003. Eu era muito moleca. Tinha 17 anos e, antes da final, fizemos uma bagunça muito grande na concentração. Era véspera do jogo contra o Canadá, e a Juliana Cabral, que era capitã, chegou e deu uma dura em todo mundo. Lembro de ficar muito chateada na época, eu não era titular ainda. Mas na final começou a virada da minha vida. Eu não tinha a mínima esperança de entrar. De repente, o Paulo Gonçalves me chamou no final do segundo tempo, com o Brasil perdendo para o Canadá. Empatamos o jogo, que foi para a prorrogação, decidida no gol de ouro. No meu primeiro toque na bola na prorrogação, fiz o gol do título. Foi isso que me deu a chance de continuar na Seleção.

Em Atenas, eu pensei que só fosse entrar em alguns jogos. Com a ajuda do Renê Simões, que era um cara mais centrado, e das outras meninas, eu amadureci nesse meio tempo. Cinco meses antes da competição, já estava me preocupando em melhorar, me dedicando, com disciplina. Estava no meio de várias meninas experientes, então tinha que mostrar que eu era diferente.

Apesar disso, o ambiente era bom. Não ficávamos muito na Vila Olímpica, mas o grupo era muito descontraído. Rolava discussão, brincadeira, briga. Imagina, um monte de mulheres juntas esse tempo todo… Eu era a menos experiente delas, e mesmo assim o Renê acreditou em mim. Eu só tinha 18 anos. Tinha a Roseli, a Grazi no elenco e fui eu quem entrou no segundo jogo, contra os Estados Unidos, mudando nossa formação tática. O Renê acreditou nessa estratégia e recebi mais uma oportunidade contra a Grécia, no jogo seguinte. Fiz três gols nas donas da casa, mais dois contra o México, pelas quartas de final, e me tornei um dos destaques da competição.

Eu não fazia ideia. Você não pensa nessas coisas quando tudo acontece. Na época, ficaram se perguntando quem era essa menina. O pessoal começava a olhar mais para mim, que era, em dois jogos, a artilheira dos Jogos Olímpicos. Com 18 anos. Vim pelas beiradas, mas só fui ter noção de artilharia com o fim dos jogos, quando começaram os pedidos da televisão, as oportunidade de ir para fora.

Quatro anos depois, em Pequim, pude me igualar à Prinz como maior artilheira da história da competição. Naquele ano, o Jorge Luiz estava me tirando no meio dos jogos. Até que uma hora eu fiquei pê da vida na hora de sair. Ele me chamou depois para conversar, me deu uma bronca e… Me colocou de titular na partida seguinte. Não deu outra: contra a Nigéria, fiz três gols. Se tivesse me abalado, nada disso teria acontecido.

Mas o grande momento foi em 2012. Cheguei machucada a Londres, com uma lesão no ombro e tive que lutar muito para voltar a tempo. Eu não cheguei lá pensando em passar a artilharia. Na hora, nem me liguei. Depois, você para para refletir e… Caramba! Passei! Escrevi meu nome na história dos jogos, marquei o nome do meu país. Sou uma brasileira recordista. Obviamente, é uma conquista coletiva também. Eu não faria nada disso se não fosse pelas minhas companheiras.

Eu nunca tive problema com pressão. A cobrança nunca me atrapalhou e graças a isso construí essa história na Seleção. Às vezes, me perguntam: “Você já parou para pensar na sua carreira? Em como você ajudou a incentivar outras meninas?”. E eu não tenho essa noção de que estou na história. Isso é tudo muito bacana.

Cristiane, maior artilheira da história das Olimpíadas e jogadora da Seleção Principal Feminina

CBF
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